Vampiros, reptilianos e góticos suaves: Paranapiacaba é a Hogwarts brasileira

POR RAFAEL GONZAGA

Pensem em um lugar muito creepy? Pensou? Paranapiacaba, distrito de Santo André, no estado de São Paulo, é mais. Pense em pessoas muito, digamos, excêntricas. Pensou? As da Convenção de Bruxas e Magos, que há 12 anos acontece em uma vila de Paranapiacaba nos dias 29, 30 e 31 de maio, também são mais. Descobri o evento através do Facebook e fiquei me perguntando quem seriam os indivíduos dispostos a acordar cedo em um fim de semana (chuvoso, diga-se de passagem) para praticar feitiços. Resolvi ir até lá e conferir com os próprios olhos.

Fui no domingo, dia de encerramento das atividades. Imaginava meia dúzia de gatos pingados por lá, mas estava errado. As ruas do lugar estavam muito movimentadas com pessoas vestindo roupas pretas e uniformes temáticos – a principal organizadora da convenção, Tânia Gori, estimava seis mil pessoas durante os três dias de evento.

Tânia é bacharel em contabilidade, mas conta que há anos resolveu deixar de lado o que ela chama de linha profissional tradicional. Neta de avó com descendência cigana, desde os 9 anos ela tem contato com o universo do misticismo. Aos 24 anos, ela decidiu mudar de vida e abrir sua própria escola na missão de, segundo ela, ajudar pessoas. A escola é a Universidade Holística Livre Casa de Bruxa, em Santo André, que conta hoje com 800 alunos matriculados e há 19 anos oferece cursos como reiki kabalístico, vivência xamânica, consagração zodiacal e drenagem linfática.

Tânia Gori é a principal reponsável pelo evento. Foto: Felipe Cotrim/Elástica

Apesar de trabalhar na linha da bruxaria natural, da qual é fundadora, o evento na vila de Paranapiacaba reúne diversos segmentos esotéricos, como druidismo, xamanismo, além da presença de ciganos e wiccas. “A bruxaria natural independe da religião da pessoa, ela é uma filosofia de vida que envolve a utilização dos quatro elementos. Você aprende a usar o ar, o fogo, a água e a terra para buscar equilíbrio”, explicou.

Só a ida para a vila de Paranapiacaba onde o evento acontece já é uma jornada. O local é afastado e em dado momento o motorista se descobre no meio de uma estrada de terra cercada por uma floresta densa e pontuada com pontezinhas de madeira que fazem você pensar se já viveu tudo o que gostaria toda vez que se depara com uma no caminho. Dá para ir de trem também, mas, por via das dúvidas, leve os sete livros de Harry Potter para ir lendo no caminho: vai ser uma viagem longa.

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A vila não poderia ser mais apropriado para a convenção. Tudo por lá parece ter sido feito para integrar um blockbuster de terror. Na entrada da cidade, a recepção era feita por uma estação de trem decorada com vários vagões enferrujados em uma espécie de cemitério ferroviário. As casas, de madeira, pareciam saídas do filme de suspense A Vila. Em dado momento do dia, uma neblina espessa começou a escorrer pela montanha que fica ao lado da cidade e, por volta de 14h, já não se conseguia mais enxergar o que acontecia no próximo poste. O café da cidade tocava Summertime sadness, da Lana Del Rey (sério).

Foto: Felipe Cotrim/Elástica

Evocando a serpente de fogo

Fui procurar um evento chamado Resgate Espiritual que estava acontecendo na Escola Estadual Senador Lacerda (preciso falar que, novamente, parecia um cenário de filme de terror?). Estava andando pelos corredores do colégio quando fui atraído por um aroma forte de incensos e um rufar de tambores vindos do subsolo do local – é claro que desci as escada e fui ver o que era. Ao redor de um pequeno caldeirão pegando fogo, 13 pessoas giravam e repetiam frases como “pelo poder essencial eu desejo a realização dos meus objetivos”. Sentei em um dos bancos para observar melhor.

Era a evocação da serpente do fogo, realizada por Daniel Aristíades. Pedi para participar, mas não pude – fui informado que todas as pessoas já haviam sido conectadas energeticamente no início do ritual. Os 13 continuavam falando algumas frases e rodando quando, de repente, a pequena chama do caldeirão começou a girar em direção ao teto do local, atingindo-o. Tentem lembrar o maior susto que já tomaram na vida. Possivelmente, o meu foi maior.

Assustador? Foto: Felipe Cotrim/Elástica

“Dançar para o elemento fogo é uma situação onde a alma vai junto. É uma alegria muito grande, um poder de transmutação muito forte. Eu sempre entro em transe quando danço para o fogo”, contou a professora de dança cigana Marcia Szala, uma das que mais performava ao redor do caldeirãozinho.

Participei de um ritual para evocar fadas e dragões

Uma das atividades que Tânia me recomendou acompanhar foi o Encontro das Fadas, com o sacerdote Valdir Callegari. Em um campo aberto, Callegari organizou dezenas de pessoas em dois grandes círculos. Um monte de gente começou a fazer perguntas, ele foi se empolgando respondendo (quando digo se empolgando quero dizer usando o filme Malévola para explicar evidências históricas da existência de uma relação entre humanos e fadas) e teve que ser cortado por outra organizadora para começar de vez a cerimônia.

Valdir Callegari. Foto: Felipe Cotrim/Elástica

Basicamente, quatro pessoas vestidas apropriadamente convidavam as fadas do ar, da água, da terra e do fogo através de frases ditas em tom teatral. Depois disso, todos se juntavam para ouvir uma harpista tocando – segundo Callegari, as fadas não curtem muito funk. Apesar de toda a dramaticidade do ritual, que durou quase uma hora, a ideia ali era basicamente trazer bons fluídos para os participantes ou, pelo menos, eu enxerguei dessa forma – ainda mais visto que, infelizmente, não vimos nem a Sininho, nem o Smaug.

Reptilianos, Illuminatis e extraterrestres

Uma das coisas que me chamou a atenção era um espaço totalmente dedicado à Ufologia na Convenção. Depois da tal invocação das fadas, decidi que precisava entender um pouquinho mais sobre os nossos primos distantes (ou próximos?) e escolhi uma palestra chamada Manipulação humana por ETs e o Governo Oculto.

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A sala estava lotada de gente que realmente levava o assunto muito a sério. O ufólogo e psicanalista Sergio Campos afirmava que diversas pessoas já haviam buscado a ajuda dele após ter contato com reptilianos (seres extraterrestres que estariam ligados aos Illuminati). “Uma psicóloga do Rio de Janeiro me procurou para contar que tem contato com eles desde a adolescência, que a visitam, abduzem. Segundo ela, já teve até relações com reptilianos, gerou muitos fetos, mas foram tirados por eles. Isso afetou toda a vida dela”, contava para um público que escutava tudo com o máximo de atenção.

O público de Sergio é fiel e participativo. Foto: Felipe Cotrim/Elástica

Para quem não entende muito do assunto, era difícil conectar duas frases do que Campos falava – meu caso. “Por que nem todo mundo vê eles? Porque nós estamos na terceira dimensão e eles trabalham na quarta, que é muito mais segura para eles. Quem assistiu Matrix? Lembram quando o Neo tomou a pílula e acordou em uma cápsula cheia de máquinas sugando ele? Nós somos assim. Nós temos mais de sete corpos nas outras dimensões”, afirmava, antes de começar a falar sobre Adolf Hitler ser um bastardo reptiliano.

Vampiros, xamãs e uma espécie de casamento bruxo

Depois de tomar um café, comer um bombom de cambuci (tudo em Paranapiacaba é feito de cambuci) e quase ser atropelado por um trenzinho turístico que tocava Losing my religion, do R.E.M, acabei indo parar em uma sessão chamadaVampiros: mito ou realidade.

Além dessas atividades, participei de mais algumas – só no domingo (31), a programação contava com 97 atrações das 9h até 17h. Uma delas era o Showmanismo, uma espécie de espetáculo xamânico. Chegamos adiantados e deu para ver também uma espécie de roda de cura – 70 pessoas estavam sentadas em um círculo enorme enquanto quatro pessoas ficavam no meio fazendo movimentos com ervas, chocalhos e tocando tambores. Uma dessas pessoas usava um casaco típico de colegiais norte-americanos e um colorido chapéu de caubói.